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Vale do Café: Fazendas históricas na região que vai de Vassouras a Resende, no Rio de Janeiro, mantêm a atmosfera dos tempos áureos do chamado ouro negro, com direito a serestas, saraus, mesa farta e muitos “causos” para contar

valedocafeNa década de 1860, 15 cidades que circundam o Rio Paraíba, aproximadamente 130km do Rio de Janeiro, desde Vassouras até Resende, produziam 75% de todo o café vendido no mundo. O chamado ouro negro alavancou o desenvolvimento do Brasil, trouxe ferrovias e iluminação pública e permitiu a construção de casarões que mais pareciam palácios rurais, decorados com tudo o que havia de bom e de melhor na Europa. Depois, o ciclo entrou em decadência e a região amargou décadas de vacas magras. Nem por isso, porém, perdeu a pompa de outrora. Hoje, pelo menos 30 fazendas no Vale do Café abrem suas porteiras a visitantes para mostrar um pouco da opulência, tradição gastronômica e das histórias que marcaram o tempo dos barões.

Sem pressa, quem visitava a região viaja no passado e faz uma boquinha acompanhada de um bom dedo de prosa, como costumava rolar na fase áurea do grão. A maioria dos casarões serve doces feitos no tacho, à moda antiga, bem como queijos artesanais, bolos assados no fogão à lenha e o onipresente cafezinho coado na hora. Enquanto se delicia, o convidado enriquece o conhecimento com os locais, que nunca cansam de contar as histórias: de escravos a viscondes.

Antes de fazer essa viagem no tempo, fica a dica: é preciso agendar a visita com antecedência. O acesso a quase todos os casarões é feito por estrada de terra, mas as semelhanças acabam por aí: embora todas as fazendas respirem história e boa comida, diferem entre si em estado de conservação e objetos e mobiliário que abrigam. Confira sete dessas joias da região que podem, e devem, ser visitadas em qualquer época do ano em um passeio com cheirinho bom pelo Vale do Paraíba.

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Santa Cecília

A fazenda remonta ao período anterior ao Ciclo do Cadé, mas o Bartão de Paty de Alferes alterou seu estilo para o neoclássico por volta de 1840. Em 2009, serviu de locação para a novela “Paraíso”, da Rede Globo. Um “detalhe” de 1989, no entanto, contrasta radicalmente com o caráter histórico da propriedade: com seu inconfundível traço futurista, o arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) projetou uma capela de presente para celebrar os 15 anos de Maria Cecília, filha do proprietário José Aparecido de Oliveira, ministro da Cultura do governo José Sarney. Arredondada, a capela tem em seu interior um mural azulejado no qual Niemeyer desenhou, com caneta Pilot, a trágica história da santa que também batiza a propriedade. Só essa atração já justifica a visita, que custa R$ 30 por pessoa se incluir lanche e R$ 45 com almoço em sistema bufê. Também é possível pagar R$ 75 pelo day use ou se hospedar em uma das 19 suítes adaptadas à construção.
Endereço: Estrada do Titipió, Miguel Pereira.
Telefone: (24) 2484-8283.

São João da Barra

A São João da Barra é fruto de uma “teimosia” do pecuarista Rogério van Rybroek. Na época da compra, a fazenda, de 1830, estava totalmente abandonada e demandou um trabalho de restauração que durou 18 anos. Mas o resultado impecável compensou o tempo de espera. Não à toa, a propriedade, que também foi cenário da novela “Paraíso”, da Rede Globo, serve de palco para o Festival Vale do Café, realizado no inverno. Hoje, o casarão guarda um rico acervo de documentos e objetos que contam um pouco da história do Brasil, desde instrumentos de tortura de escravos até moedas antigas e comunicados com a assinatura de Dom Pedro II, emoldurados junto a um convite para o funeral do último monarca brasileiro. Várias peças foram adquiridas em leilões na Europa. As visitas são agendadas para grupos de, no mínimo, 12 pessoas.
Endereço: Km 8 da RJ-121.
Telefone: (24) 2239-5823.

Cachoeira do Mato Dentro

Em estilo neoclássico, o casarão do século 19 tem uma surpreendente decoração kitsh — com muitas flores de papel e contas penduradas nos lustres. De propriedade da família Rangel desde 1896, guarda parte do mobiliário e das louças da época, além de terreiros de café, senzalas e as memórias de uma baronesa que, supostamente, proibia que os escravos fossem castigados. Esse e outros causos são contados pelo espirituoso Luiz Felipe Rangel, que divide a administração com a historiadora Lilia Gilson Rangel. O casal abre suas portas sem cerimônia aos visitantes, que podem saborear um café ou almoço tipicamente rural, com linguiça, queijo e doces produzidos ali mesmo. Se puder, vá na primeira quinzena de maio, quando a fazenda promove o trafficional Concerto de Outono.
Endereço: Rodovia BR-393, km 173, Vassouras.
Telefone: (24) 2471-6779

Fazenda União

União

Aqui você encontra um dos casões mais bem preservados dos tempos do Brasil Império, erguido em 1836 pelo Visconde do Rio Preto. Tanta pompa e procura fizeram com que os proprietários o transformassem em um hotel com a opulência dos tempos dos barões — apesar de alguns confortos da modernidade, como TV de LED, hidromassagem e até lareira digital nas suítes. Em compensação, o mobiliário é todo antigo, com peças arrematadas em leilões e antiquários. O espaço cultural se encarrega das apresentações de manter vivos os costumes do período colonial, assim como os banquetes conduzidos por sommeliers e historiaadores. Nos menus, receitas da culinária do século 19, como pastel de angu, panqueca de taioba e rabanadas com geleias.
Endereço: km 25 da Estrada do Abacarracamente (RJ-135), Rio das Flores.
Telefone: (24) 2458-1701.

Santa Eufrásia

A Santa Eufrásia é a única fazenda particular tombada pelo Instituto do Patrimônico Artístico nacional (Iphan) no Vale do Café. Seu acervo conta com móveis e utensílios autênticos do século 19. Árvores centenárias, um belo gramado e um açude circundam a casa-se, cuja construção foi iniciada em 1830 pelo Comendador Ezequiel de Araújo Padilha, que adorava música e promovia festas e saraus memoráveis ali. Excêntrico, ele também chegou a importar gôndolas de veneza, na Itália, para tornar os passeios pelo açude mais românticos. Em 1905, a propriedade foi vendida ao Coronel Horácio Lemos, que queimoy o cafezal para investir na criação de gado bovino. Hoje, porém, sua bisneta, Beth, mantém novamente cafés em produção, como nos tempos áureos do ouro negro, além de uma pequena loja de antiguidades. Com agendamento prévio, dá para visitar a fazenda e ainda fazer uma boquinha regada ao próprio café colhido ali.
Endereço: Km 242 da BR-393
Telefone: (24) 9994-9494

Ponte Alta

As visitas guiadas na Ponte Alta contam com grande produção: desde a chegada, o grupo é recebido pelo Barão de Mambucaba, baronesa e mucama, que contextualizam toda a história desde o Ciclo do Café até os dias atuais. Também são esses personagens que protagonizam os passeios de turismo pedagógico e as apresentações das danças do Império: polca, minueto e valsa. Isso sem contar os sarais históricos, como o de Getúlio Vargas, que tem como foco a década de 1950— foi ali, na Ponte Alta, que o ex-presidente comemorou seus últimos cinco aniversários. Com atmosfera tão envolvente, dá até vontade de se hospedar por lá, o que é possível. A diária para casal parte de R$ 400, e o day use com almoço custa R$ 98 por pessoa. Já as visitas guiadas com sarau saem a partir de R$ 60.
Endereço: Av. Silas Pereira da Mota, 880, Parque Santana, Barra do Piraí.
Telefone: (24) 2443-5159

Mulungu Vermelho

Com pouco tempo de lavoura, a Fazenda Mulungu Vermelho tornou-se uma das mais prósperas de Vassouras. Sua história remonta ao início do século 19 e a à construção do bem cuidado solar de São Francisco, datado de 1831, ainda na primeira fase do ciclo cafeeiro no Vale do Paraíba. Aberta a visitantes, a propriedade oferece várias opções de lazer, como piscina, sauna, casinha de bonecas, churrasqueira, forno para pizza, criação de pavões, playground, lago e miniquadras de basquete. Também é possível hospedar-se por lá com regime de meia pensão.
Endereço: Rua Barão de Cananeia, s/n, Vassouras.
Telefone: (24) 99230-7772.

Por Heloísa Cestari
Publicado em Revista Férias no Brasil – mês de Março – edição número 4.